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Doc: Mulheres de Havana

Pensei em fazer um relato sem devaneios que resumisse o projeto Mulheres de Havana, filmado em fevereiro de 2019, por mim, e por duas amigas, comigo desde os tempos da faculdade de jornalismo. Mas acho que preciso me atentar aos detalhes, porque o resultado desse filme não diz tanto sobre ele quanto o processo que o faz nascer. O documentário representa uma transformação intensa em nossas vidas, e uma necessidade de compartilhar uma visão de mundo que nos permite ser mais espontâneas, livres e sem medo. Ou pelo menos a questionar nossos padrões culturais que moldaram os papeis dos quais muitas vezes ocupamos sem perceber e sem saber que podemos ser o que quisermos ser. Pois essas são algumas lições que aprendi com as mulheres de Havana.

A passagem para Cuba foi comprada de maneira despretensiosa, fui vítima de uma propaganda imperdível que oferecia um lugar na janela a preço acessível. E num impulso, fiz a certeira aquisição. Mas nada é o que parece ser, e sei que como tudo o que não se pode ver, no inconsciente estava eu criança a saber do meu pai em Havana. É uma memória um pouco embaçada, sem a nitidez da tecnologia. Era início dos anos 90 e tudo o que eu sabia dele era que gostava de viajar. Quando voltou, me trouxe um macaco de pelúcia vestido de óculos amarelos. Tenho até hoje. Os óculos serviram perfeitamente no meu crânio infantil, e ficaram perdidos no tempo. Mas o macaco está aqui na prateleira dos livros da minha casa em São Paulo, ao lado de uma pintura que fiz com giz pastel, de um avião no céu, em 1994. Recentemente, poucos anos atrás, encontrei algumas fotos daquela época, dentre os papeis que acabei herdando. Meu pai a cavalo, provavelmente pela praia de Santa Clara, um mapa do País, e também achei cartas de amigos que faz em Havana, e hoje quase os escuto, com sotaque, enquanto os tento ler em espanhol. Isso estava lá, ao lado da minha cama todos os dias, me chamando. Me empurrando, me estimulando a abrir o link da promoção. Como se eu precisasse de mais uma prova de que existe uma força sem tamanho no que é subjetivo.

A partir daí construí uma narrativa de que viajaria a modo solo, aproveitaria esses dias para refletir, entrar mais dentro de mim, escrever, ficar quieta e sem a necessidade de responder a tudo e a todos, eu sempre a dar satisfação. Neguei com esforço as melhores companhias para irem comigo, porque achei que sozinha poderia com mais facilidade, me encontrar. Doce ilusão, viver sem conexão. 

Eu sabia que fotografaria, que filmaria, que me apaixonaria pelas vielas e pessoas que encontrasse e criaria um vídeo para mim. Só que esse não-planejamento foi crescendo e me vi envolvida com pessoas incríveis, assim como a ideia de criar algo maior do que um registro que servisse somente para mim. Então chamei as colegas Tiara Vaz e Andréa Azambuja para escreverem comigo essa história. O que vimos está nesse documentário, que é mais do que um trabalho autoral, é um presente para todo mundo que quer viver diferente, com mais amor e mais poesia. Conversamos com dezenas de mulheres cubanas sobre assuntos pessoais e íntimos e de cada casa que entramos saímos um pouco mais de nosso universo determinado. Precisei desconstruir tudo o que sabia sobre relacionamento humano, sobre o que acredito e sobre as bandeiras que sempre levantei, e me percebi muito mais através do outro, crescendo junto, sentindo junto e quebrando junto as barreiras que a sociedade em que vivemos erguem o tempo inteiro. E hoje só existo assim, na reconstrução. E dei outro sentido a palavras conhecidas, como autoestima e coragem.

Segue aqui o trailer, que também foi criado com muito amor por pessoas que deram também um pouco de si. O documentário deve sair no segundo semestre desse ano, e é com muito orgulho que vejo esse projeto unindo cada vez mais talentos que têm me ajudado a fazê-lo nascer. Queria agradecer muito à Sentimental, que deu o suporte que precisei, sempre escutou minhas ideias e segue me apoiando para dar vida a algo que ainda nem sei explicar direito, e que continua se transformando na ilha de edição. Em breve :)

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